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[Tuesday, July 07, 2009]

Pessoal, esse servidor está abandonado. Tive que me mudar. Agora estou em www.renatoamado.blogspot.com . Está tão abandonado que sequer consigo linkar a página. Espero vê-los por lá!

por Renato Amado - contato: renatoamado@gmail.com * 12:04 PM

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[Monday, June 29, 2009]

Mais sobre pré-lançamento em Paraty, dia 03/07, sexta-feira



"CLUBE DA LEITURA: MODO DE USAR"

19 novos autores cariocas (alguns por convicção...)


24 contos inspirados na leitura de autores como Tchekov, Lewis Carrol, Neil Gaiman, Paulo Mendes Campos, Philip Roth, Moacyr Scliar, Scott Fitzgerald, Bruce Chatwin, Jonathan Safran Foer, Amélie Nothomb, Junichiro Tanizaki, entre outros

Pré-Lançamento em Paraty, durante a Festa Literária Internacional:

na Sexta-feira, dia 3 de julho, a partir das 21h,
no DINHO´S BAR, na Praça da Matriz

Com trilha sonora comandada pelo DJ Ácaro, reprisando os momentos mais sacolejantes & tropicalistas do CLUBE DO VINIL (www.baratosdaribeiro.com.br/clubedovinil).

ENTRADA FRANCA

Um evento da programação OFF-FLIP

Produzido pelo Sebo Baratos da Ribeiro

Com apoio do Portal Ambrosia e Faria Bottons
http://www.ambrosia.com.br/
http://www.flickr.com/photos/fariabuttons

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OUTRAS HISTÓRIAS imaginadas pelos autores:

Ágata Sousa, André Tag, Carmen Molinari, Cristiani Elias, Daniel Russell Ribas (colaborador Caneta, Lente e Pincel), Danielle Costa (colaboradora Caneta, Lente e Pincel) , Deborah Geller (colaboradora Caneta, Lente e Pincel), Fausto Oliveira, Gisela D´Arruda, Glória Celeste, Guilherme Preger (colaborador Caneta, Lente e Pincel), Júlio Rodrigues (colaborador Caneta, Lente e Pincel), Márcia Vitari, Renato Amado (colaborador Caneta, Lente e Pincel), Ronaldo Brito Roque, Rudá Almeida, Saulo Aride (colaborador Caneta, Lente e Pincel) e Vivian Pizzinga

Você encontra no BLOG DO CLUBE DA LEITURA:


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POIS O CASO FOI O SEGUINTE:

Dois anos atrás, um grupo bastante heterogêneo passou a se reunir na livraria, para ler trechos de seus romances e contos prediletos. Cervejinha, pastéis do Pavão Azul e muito bate-papo informal temperaram essas noitadas literárias. Para apimentar, inventaram uma tal aposta para ver quem escreve o melhor conto inspirado num dos textos dos grandes autores lidos. Foi assim, meio por acidente, meio de farra, que a maioria deles se aventurou a escrever ficção.
Os livreiros do sebo, Maurício Gouveia e Paulo Terra, se surpreenderam com a qualidade dos trabalhos que foram surgindo. Alguns artistas gráficos, que moram no bairro e são figurinhas fáceis no sebo, também ficaram encantados ao ouvir aquelas histórias impressas. Eduardo “Sama” Felipe, Johandson e Fábio Lyra apareceram com o caderno de esboços debaixo do braço, e andaram exercitando a pena ilustrando aquilo que ouviam. O editor e diretor de arte S. Lobo, que depois de extinta a revista MOSH, havia trabalhado na Desiderata, viu que tinha samba ali. Os laços de amizade se fortaleciam, os contos ficavam cada vez melhores, artistas de outras áreas se aproximavam, a livraria festejava o sucesso do evento que surgira de forma tão descompromissada.
Um livro era o único resultado possível.

Gerardo Silva, doutor em Comunicação e membro da Rede Universidade Nômade, também gostou da brincadeira, e depois de muito freqüentar o Clube apenas como leitor, escreveu um ensaio para a antologia. Onde comenta:
“A cada dia, com efeito, a cidade constrói uma arte dos encontros que produz a vida nas ruas, nas calçadas, nas livrarias, nos cafés e nas praias. Aqui em Copacabana, por exemplo, onde tudo parece tão caótico, o mercado-encontro paira no ar e é sempre capaz, sob determinadas condições, de convocar as forças que, como em Eufêmia ou em Marrakesh, animam a existência deste nosso mundo. Os contos reunidos neste livro são a prova disso.”

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A PARTIR DA SEMANA QUE VEM,

O livro estará disponível nos seguintes pontos de venda:
Sebo Baratos da Ribeiro (Rua Barata Ribeiro 354, Copacabana)
Livraria Dona Laura (dentro da Casa de Cultura Laura Alvim: Avenida Vieira Souto, 176
Ipanema)
Plano B (Rua Francisco Muratori 2, Lapa)
MAS VOCÊ JÁ PODERÁ COMPRAR, a partir de quarta-feira, 03/07, seu exemplar no site do Sebo Baratos da Ribeiro:
www.baratosdaribeiro.com.br/clubedaleitura/volume1

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QUER SABER O QUE TE ESPERA NO

“CLUBE DA LEITURA: MODO DE USAR, VOL. 1”?
Um estranho ritual ginecológico substitui as noites de amor de um jovem casal... Em “A inspeção”!
Ele é um escritor mundialmente famoso. Ele vive em um castelo no campo. Ele tem medo. Descubra o porquê em “Frágil”.
Através de um vidrinho de esmalte nasce a amizade entre mãe e filha em “O poder vermelho”.
Um cientista decide impedir uma guerra interplanetária em “Eppur si muove”!
A verdade por trás do biquíni de bolinha amarelinha finalmente revelada em “Uma história dos anos 60”.
O amor quase acontece na caminhada até o ponto de ônibus em “Um relógio de você”.
Na NY do futuro, o perigo está em gelatinosos serviçais robóticos impostos por um governo tirano. Em “Após o decreto”!
Já em “Por quê?”, uma história de amor tem final feliz sem apelar para soluções mirabolantes!
Um casal de velhinhos descobre uma fórmula para manter acesso o interesse sexual. Em “Boa noite”.
Perplexo, marido ouve a esposa anunciar que, quando guardou as compras na cozinha, deixou de amá-lo. Em “Morte súbita”.
Ancião dribla a família para continuar desfrutando as vantagens da surdez... em “O silêncio”.
Enquanto testemunha os últimos suspiros de seu pai, homem encontra uma misteriosa carta... em “Heranças”.
Em “Pathos”, velho dirige pelas estradas da Patagônia, ignorando os planos macabros da esposa para aquela noite!

E MUITO MAIS!

por Renato Amado - contato: renatoamado@gmail.com * 10:50 AM

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[Friday, June 26, 2009]

Sonhos de um Mochileiro Solitário - 17 de outubro, sexta-feira, 15o dia

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Os textos desta série foram escritos por Reinaldo Amaro, alter ego de Renato Amado. Por coincidência ambos sairam de férias para os mesmos lugares em iguais datas e estiveram em locais em comum. Entretanto, não se viram, embora um tenha sentido a presença do outro.
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O calendário indicava primavera. Já São Pedro, inverno. Chuva chata, daquelas que dura o dia inteiro, acompanhada por vento e frio. E este mochileiro em uma vila praiana. Entre passar o dia na pousada lendo e encarar uma aventura optei por esta.

A pousada ficava no alto de uma colina, bem em cima da Praia do Rosa. Já tinha ouvido falar que a vista de lá era belíssima. Bem, no verão talvez seja. Naquele dia de Uller, Deus do Inverno, entretanto, não passava de uma leve massagem nos olhos. Bem, mas como dito sobre a vista das Cataratas de Iguaçu, o contato visual é completamente insuficiente para o conhecimento. Peguei, então, a trilha que ligava a pousada à praia, nos seguintes trajes: sunga, calça comprida, camiseta, casaco, capa de chuva, tênis e meia.

Com algum esforço não me perdi na trilha. Foi uma caminhada agradável. As árvores eram suficientes para segurar o vento e a chuva, o que, combinado com meu estado de constante movimento, impedia que o frio me perturbasse.

Chegando à praia, entretanto, senti todo o poder de Uller em pleno outubro. O vento jogava os pingos de chuva contra mim de forma incômoda. A praia era extensa, eu tinha muito a caminhar, o frio era grande e minha calça ficava cada vez mais molhada, grudando na perna, gerando desconforto. Pensei em desistir. Fiquei mesmo parado refletindo sobre a possibilidade enquanto o céu aos poucos se precipitava sobre mim. Cada segundo que passava imerso neste pensamento apenas me fornecia argumentos para retornar. Os fundamentos contra a desistência já os tinha desde quando decidi sair da pousada: não sabia quando o tempo melhoraria; queria conhecer o lugar; não tinha mais nada para fazer. Entretanto, estes fatores pré-existentes não se manifestavam naquela hora. Apenas a chuva e o vento gritavam todas as razões para que eu desistisse daquela desagradável ventura. E minha mente foi tomando o caminho natural do retorno. Quando, então, resolvi dar o primeiro passo para regressar, meu corpo, por mais que incomodado com a chuva e o frio, moveu-se em sentido oposto. Restou, portanto, claro que o maior aborrecimento não era a chuva, o vento ou frio, mas minha inconformidade de lidar com estes três fatores. Projetei, pois, este sentimento em uma pedra de areia e atirei-a longe o bastante para ficar distante de mim, mas perto o suficiente para que eu a visse se esfacelando ao entrar em contato com o chão. Segui, portanto, para a direita, em direção à suposta barra da Lagoa de Ibiraquera com o mar. No caminho, passaria pela Praia da Luz.

Entretanto, por mais que meu corpo determinara-se a marchar e eu jogara o incômodo pelo mal tempo fora, era inegável que estava desagradável a caminhada. Se seguiria adiante, ao menos alguma coisa deveria fazer para minimizar o desconforto. Tirei, então, minha calça de pano, já muito molhada, pesada e desagradável ao contato com a pele. Isso me tornou um ser estranho (terceira vez – relembro os eventos de Guarda do Embaú), pois minha capa de chuva azul cobria minha sunga, indo até o início da coxa. Sem problema, afinal, percorria um trecho semi-deserto e mesmo que eu caminhasse nu não haveria quem me censurasse.

Cheguei à dita barra, mas para minha surpresa o mar e a lagoa não se tocavam. Talvez na maré alta aquela abasteça esta. Mera conjectura, o fato é que não sei. Confesso que o tempo desagradável e a falta de estética do lugar não foram um incentivo para que eu continuasse ali. Parti, voltando para a Praia do Rosa. Essa praia é relativamente grande, talvez tenha dois quilômetro de extensão. Próximo à ponta onde eu me encontrava havia pousadas por perto, vez por outra passava alguém, como um grupo de dois cavaleiros e uma amazona, o que foi uma cena um bocado inusitada. Deviam estar cavalgando por Avalon e acabaram se perdendo. Mas na extremidade oposta da referida praia, onde se pega a trilha para a Praia Vermelha, não havia viv`alma. Era impossível ficar ali sem ter um forte sentimento de solidão ou de solitude. Qualquer deles necessariamente acompanhado por um calafrio pela certeza de que não haveria gente para ajudar caso eu me perdesse ou ocorresse qualquer outra coisa, por mais que eu gritasse até gastar as cordas vocais. Por outro lado, pensar na presença de alguém não era reconfortante, posto que uma pessoa má intencionada teria carta branca naquele lugar. Todavia, afastei estes pensamentos e me concentrei na caminhada. E, de fato, isto era necessário, pois ao final da Praia do Rosa, não encontrava a trilha para a praia seguinte.

A faixa de areia na qual eu me encontrava era cercada por um pequeno morro, que teria que atravessar para dar continuidade à caminhada. Na pousada na qual me hospedava, fui informado por sua dona que havia um caminho mais curto que passava pelo alto da colina. Entretanto, ele tinha sido fechado, posto que passava por uma propriedade privada, de modo que era necessário fazer um contorno, pelo final do rochedo, mas não encontrei este caminho após breve procura. Vi, em seguida, uma trilha que subia o morro. Como a maria farinha que estava por ali não me prestou qualquer informação, restou-me seguir pela única via encontrada.

Fui morro acima assim como costuma fazer o fogo, mas ao contrário dele sou passível de fatigar-me. Cheguei muito cansado a uma porteira encostada e não hesitei em abri-la e entrar. Invasão de propriedade privada? Não, direito de passagem inocente. Dentro da propriedade, o que era trilha ganhava contorno de uma estradinha de terra, dessas com o centro elevado e gramado e espaços aos lados para que repousem as rodas de um carro. Como o veículo chega lá em cima não é claro, mas certamente não era pela estreita, íngreme e fechada trilha pela qual eu caminhara. Segui, sem saber ao certo aonde ia dar, mas na esperança de encontrar o proprietário e que ele ficasse mais agraciado por acontecer algo de diferente naquele lugar ermo do que assustado com minha bizarra vestimenta.

Logo surgiu um veículo, um quatro por quatro. Parei, nitidamente aguardando que o carro se aproximasse para travar um diálogo. Entretanto, o automóvel parou a alguns metros de distância e uma besta armada saiu de dentro dele. Em seguida uma cabeça semi-grisalha, envelhecida e magra, que emanava uma voz fina, lenta, caricata e curiosa.

- Quem é você?
- Um turista perdido.
- Hm... E o que fazes em minhas terras?
- Quero chegar à Praia Vermelha.
- Mas não é pelas minhas terras que lá se chega.
- Desculpe, tô realmente perdido.
- Hm... Estranho...
- Só tô perdido, só isso.
- Hm... Mas minhas terras nunca foram caminho para a Praia Vermelha. Se você tivesse pego as terras ao lado, do Rei Antônio, acharia normal você estar perdido. Por acaso você é um espião de outro reino?
- Não, não. Sou apenas um turista mesmo. Bem, vou voltar, desculpe ter entrado em suas terras sem querer.

Dei as costas e comecei a retornar.

- Espere!
- Pois não.
- Eu te levo no meu cavalo até a porteira. Por favor, suba.
- Obrigado, mas... Acho que vou andando mesmo.
- Suba no meu cavalo. – pausadamente e afinando a mira da besta. Entrei, então, em seu carro – Sabe como é, nesses tempos violentos, preciso acompanhá-lo até a saída, pra certificar-me de que você abandonou minhas terras e estou realmente seguro.
- Entendo.

Seguimos até a porteira no seu quatro por quatro que ele chamava de cavalo. Aquele senhor magro passou a parecer-me um lunático quase inofensivo. Não creio que ele atiraria em mim com a besta. Ao ir embora não resisti a brincar um pouco.

- Há algum perigo na volta por essa trilha? Pensa que pode haver ladrões ou seres perigosos?
- Ah, sim, claro, fique atento, pois já fui atacado por um grupo de goblins, mas dei conta deles com minha adaga. – levantou sua cumprida camisa de botão, mostrando uma bela adaga presa a um coldre – Volte para a praia, mas com cuidado. Se ouvir algum barulho estranho, corra. Os goblins são lentos e não conseguirão alcançá-lo. Ao chegar na areia, procure por uma pequena e discreta passarela na extremidade do rochedo. Por lá você encontrará o caminho para a Praia Vermelha sem que passe pela propriedade de alguém. Ah, e não dê bola a alguns duendes peraltas que você provavelmente encontrará pelo caminho.
- Ok, obrigado. É longe daqui?
- Não, é perto, em até vinte minutos você estará lá. Mas mantenha-se atento aos perigos. Muitas vezes o que parece próximo e simples torna-se distante e inalcançável.
- Tá, obrigado mais uma vez pelos conselhos.
- Não há de quê. Disponha.

Segui trilha abaixo, sem saber se me recuperava de um susto ou gargalhava. A falta de alguém para compartilhar sentimentos me causava dúvida. Não sabia se havia vivido algo cômico ou sobrevivido a uma arriscada aventura. Provavelmente uma pessoa da cidade, como a dona da pousada, saberia me responder. Não é possível que aquele homem fosse desconhecido na região. Bem, mas voltei a me concentrar na caminhada e procurei a tal trilha para a próxima praia.

Ela começava discreta, bem escondida, no final do paredão, perto do mar, contudo a uma altura a salvo das ondas. Por lá caminhei e, aos poucos, a trilha foi saindo da parte de rochedo e subindo a montanha, tornando-se primeiro de areia e depois de terra. Pois ainda na área arenosa deparei com uma das coisas mais estranhas que já vi: um caramujo. Tratava-se de um caramujo gigante e esquisito, diferente de qualquer outro que eu já tenha visto. Media dois palmos e tinha pequenos tentáculos nojentos que usava para perceber o ambiente e se alimentar. Parei para observá-lo por um longo período. Foi quando ouvi passos. Lembrei, instantaneamente, da história dos goblins. Caramujos gigantes, um louco que fala de goblins, barulho de passos, um lugar deserto, uma velha assombrada na véspera... Comecei a achar tudo muito bizarro e a considerar minha viagem um tanto sobrenatural. Parecia estar caminhando em direção a Midgard. Tive medo. Estava só, a chuva castigava, e coisas sinistrar estavam ocorrendo. Recorri, pois, à tática adotada em todos os momentos de hesitação: concentrar-me na caminhada. Marchei morro acima, ouvindo o sonido do mar afastando-se... reduzindo-se... silenciando-se... de súbito parou! Parei. Voltei... voltou... Segui. Parou. Parei. Voltei... voltou... Segui. Parou. Parei. Uma curva separava o ruído do mar do seu silêncio. Era incrível. Apenas fazia-se uma dobra na trilha e o som do oceano, que era distante, mas constante e que se reduzia paulatinamente, de súbito desaparecia por completo. Concentrar-me na caminhada.

Foram vinte, trinta, quarenta minutos para chegar à Praia Vermelha. Na caminhada, chegava a alguns pontos altos de onde tinha vista para a praia de onde eu viera. Nesses momentos tinha noção da minha solitude naquele lugar. Uma solitude talvez nunca dantes experimentada. Podia pegar um megafone e gritar que ninguém, salvo os supostos seres sobrenaturais da região, me ouviria. Era eu, o mar quebrando lá embaixo, a montanha, o mato, os animais, a chuva e o vento. Senti-me à vontade, parte integrante do ecossistema. Vez por outra não resistia, após olhar o horizonte, o mar e a natureza a me cercar, a soltar uma exclamação, um grito de glória. Mas em outros momentos atacava-me certa solidão e agonia por ser o único ser humano naquele quilômetro quadrado. Nestas horas, sacava meu celular e mandava uma mensagem, fosse a uma pessoa que já tivesse estado na região, para perguntar sobre a praia “x”, fosse só para dizer que me sentia um náufrago. Mas chovia e a lição de Foz do Iguaçu não fora suficiente. Com isso, novamente meu celular parou de funcionar, o que aumentou a paura. Passei a caminhar com extremo cuidado para não torcer o pé ou me machucar seriamente de alguma outra forma. Se eu morresse ali só achariam meu corpo quando começasse a feder muito, a menos que os urubus ou algum ser de Midgard me devorasse antes. Também tive medo de estar perdido, embora a trilha fosse bem sinalizada, pois se passaram os ditos vinte minutos e nem sinal da Praia Vermelha. Concentrar-me na caminhada.

Após mais do que o dobro do tempo indicado cheguei ao primeiro destino. Uma praia não muito grande, com areia fofa e completamente deserta. O medo de perder-me aumentou. Poderia não achar a trilha ou ir pela errada para a praia seguinte, a do Ouvidor. Atravessei a faixa de areia na qual estava até que vi escrito em uma pedra “Ouvidor” e uma seta. Segui. A esta altura já estava cansado, caminhara muitas horas. A idéia de estar vivendo aquela aventura era excitante, mas meus pés faziam ploc dentro dos tênis quando eu pisava, a capa de chuva há muito se tornara um assessório simbólico e o vento gelava meu corpo molhado. Havia uma estrada de chão que ligava a Praia do Ouvidor ao Centro, o que significava que algum movimento havia por lá. Isso servia como acalento. Mas acabou por ser um grande alívio. Confesso que gemi quando atingi um ponto mais elevado da trilha, de onde pude ver surfistas na praia seguinte. Um genuíno gemido de prazer, já que os alívios são os maiores prazeres.

Da Praia do Ouvidor peguei a estrada de terra que me levaria de volta para a cidade. Mas havia um problema: eram quatro quilômetros de caminhada. Tentei carona, mas por motivos óbvios (lembre-se dos meus trajes) ninguém parou. Segui... segui... segui. Meus pés doíam, era fim de tarde e a temperatura caía, a chuva não parava. Concentrar-me na caminhada.

Ao chegar ao Centro peguei do bolso da calça um papel com o telefone de um taxista que a dona da pousada havia me dado. O papel estava muito molhado e tive grande dificuldade para conseguir abri-lo. Fui até o orelhão mais próximo, mas estava com defeito. Entenda que este era praticamente um momento de alívio. Quando retornei à cidade dei a aventura por encerrada, de modo que o resto eram apenas formalidades a serem cumpridas para que eu estivesse em breve sob uma ducha quente. Qual não foi, por conseguinte, minha reação quando me deparei com um telefone público quebrado. Bati o fone com força e caminhei ato contínuo, sem hesitação, a um supermercado. Nenhuma hipótese, pensamento, conjectura passava pela minha cabeça. Precisava de um orelhão funcionando e ponto. Essa era minha meta e a única coisa que corria pela minha mente. Não eram feitas consideração sobre os meios. Entrei no supermercado e sem dar boa tarde perguntei por um telefone público. Enquanto alguém que não me lembro, posto que só o objetivo era importante, me respondia, uma fração de minha atenção foi desviada para a moça do caixa, que olhava para meus olhos e em seguida para minha cintura, repetindo isso diversas vezes, com o queixo levemente caído e expressão de espanto. Certamente julgava que por baixo de minha capa de chuva havia cueca ou nada, já que eu carregava minha calça pendurada no braço direito. Após uns poucos segundos, todavia, minha atenção voltou-se novamente toda para a missão e, com a informação obtida, caminhei ao orelhão mais próximo, chamei o taxista e em minutos estava no tão desejado banho quente. Um alívio indescritível.

Não me recordo o que aconteceu depois disso. A memória do banho quente e da sensação de estar agasalhado depois do que passei em cinco horas de caminhada apagou por completo qualquer lembrança de fatos posteriores, portanto não lembro onde nem o que comi. Minha memória só retorna para narrar-lhes que sonhei que estava só numa grande planície. Ouvia o vento e caminhava na direção em que ele soprava. Ele me incomodava, mas ao mesmo tempo era meu aliado, indicando-me o caminho. Acordei durante a madrugada sem que a história tivesse conclusão. Voltei a dormir e o sonho prosseguiu. Enquanto eu caminhava vi, em horizontes opostos, enormes seres se aproximando. De um lado, deuses, de outro, gigantes. Eles iniciaram uma batalha, ignorando minha presença. Eu buscava me proteger, para que nenhum raio divino caísse sobre mim. Vi, então, uma maçã dourada em meio ao campo de batalha. Fui em sua direção, o que se revelava arriscado. Mas estava por ela hipnotizado. Quando me aproximei da fruta, adentrando a área mais conflituosa, os deuses e gigantes repararam minha presença e me olharam com estranheza, parando o combate. Senti-me, por um instante, tímido, mas logo passei a ignorá-los e segui resoluto em direção à maçã. Ia pegá-la quando um menino negro muito magro, sem camisa, com bombacha e um escapulário de Nossa Senhora, passou montado em um cavalo baio, puxando-me para cima do arreio. Cavalgamos em direção ao sul enquanto Uller voltava a atirar flechas contra os gigantes sob forte nevasca. Ainda durante o sono, decidi que no dia seguinte iria para o Rio Grande do Sul.


por Renato Amado - contato: renatoamado@gmail.com * 2:01 PM

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[Friday, June 19, 2009]

LANÇAMENTO!!! - é durante a FLIP 2009!

"Clube da Leitura: Modo de Usar" - sou um dos autores dessa antologia

24 contos por 18 novos autores cariocas
(alguns deles, cariocas por mérito)

Prosa de ficção + música marota gravada no Clube do Vinil

Sexta-feira, dia 3 de julho, a partir das 21h, no Dinho´s Bar, Praça da Matriz, Paraty

O evento faz parte do calendário oficial da OFF-FLIP.

Produzido pelo Sebo Baratos da Ribeiro, com apoio da Faria Buttons, Portal Ambrosia e livraria Dona Laura

Mais informações, contos, matérias durante a FLIP e nos dias que a antecedem poderão ser encontradas em: http://www.baratosdaribeiro.com.br/clubedaleitura e http://dinhosparaty.blogspot.com/

por Renato Amado - contato: renatoamado@gmail.com * 5:16 PM

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[Tuesday, June 09, 2009]



por Renato Amado - contato: renatoamado@gmail.com * 9:19 AM

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[Wednesday, June 03, 2009]

Sonhos de um mochileiro solitário – 16/10 – quinta-feira, 14º dia

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Os textos desta série foram escritos por Reinaldo Amaro, alter ego de Renato Amado. Por coincidência ambos sairam de férias para os mesmos lugares em iguais datas e estiveram em locais em comum. Entretanto, não se viram, embora um tenha sentido a presença do outro.
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Um ônibus até Florianópolis, outro desta cidade até perto de Garopaba e, por fim, um táxi até meu hotel no Rosa. Sim, disse hotel, não albergue. Explico. Este projeto de escritor que vos fala, certa feita foi convidado a escrever uns textos para um livro de turismo e o pagamento foi feito através de crédito em bons hotéis pelo Brasil. Pois bem, como a essa altura estava no início da segunda metade da viagem julguei conveniente aproveitar que um destes hotéis era no Rosa e curtir um pouco de conforto.

Novamente eu estava em uma pequena cidade, com tempo chuvoso, na baixa temporada. Não tinha a mesma sensação de estar numa vila fantasma, pois no Rosa tem bem mais gente e menos cachorro do que em Guarda do Embaú, mesmo fora de época. Passa um ou outro ônibus, carros, circulam pessoas, enfim, tem vida, mesmo que seja a de uma típica cidade pacata de interior.

Outro fato repetido é que, uma vez mais, eu era o único hóspede de onde estava. Ah, que beleza! A dona do hotel foi simpática e me ofereceu um quarto melhor do que eu teria direito. Um quarto grande, desses de turista endinheirado, só faltava a banheira com hidromassagem. E o mais incrível: tinha televisão! Há quanto tempo eu não via uma! Me deliciei assistindo a propaganda dos candidatos que haviam ido para o segundo turno das eleições municipais de Florianópolis. Decorei todas as propostas e pontos fracos de cada um deles, enquanto, pela primeira vez, perguntava-me como estaria a corrida eleitoral no segundo turno carioca. Quem ganharia, a bicha maconheira ou o playboy? Sei lá, estava distante de minha cidade, sozinho em um hotel, numa cidade de pouco movimento, ou seja, um convite para a saudade e a solidão. Buscando enganar os pensamentos pus-me a ler. Mas não foi preciso o livro para despistar minha atenção. Logo a fome o fez.

Procurei a dona do hotel e perguntei o que tinha para comer. Como eu era o único hóspede, a resposta foi “nada”. Bem, ao menos no que se refere a um jantar, com menu, coisa e tal, mas ela se propunha a preparar um lanche. Ok, lembrei-me de dois Miojos que eu carregava comigo e pedi que ela os preparasse, junto com um queijo quente. Com boa vontade, minha anfitriã o fez, enquanto conversávamos sobre a fundação da pousada, minha viagem e outras futilidades. Após comer, fui deitar com a barriga bastante cheia e esperei o sono chegar, enquanto assistia televisão. Quando estava pegando no sono senti um pé sobre meu ventre, pisando-o com muita força, a ponto de sentir-me sufocado, e ouvi uma gargalhada escandalosa, sinistra e sobrenatural. Ao abrir os olhos vi uma velha macabra, com unhas enormes e amareladas, cabelos desgrenhados, olhos vermelhos e arregalados, o queixo torto para cima e o nariz arqueado para baixo, exalando maldade. Tentei gritar e me mover, mas estava aterrado e a voz não saía de minha boca, meus membros não me obedeciam e o peso que sentia comprimir meu estômago aumentava a ponto de faltar-me ar. Já estava ficando azul quando na televisão surgiu uma figura ainda mais sinistra. Era Esperidião Amin, candidato à prefeitura de Florianópolis. Sua imagem fantasmagórica, completamente desprovida de pelos, assustou a mulher, que fugiu para a varanda e, ficando em pé sobre o parapeito, subiu para o teto. Dei um grande suspiro para recuperar ar, tossi algumas vezes, usei meu remédio para asma e aos poucos minha respiração foi voltando ao normal. Em seguida, verifiquei se a porta do chalé estava trancada, tranquei a porta de vidro que dava acesso à varanda e fechei a cortina que ficava antes dela. Não sonhei em desligar o abajur ou a televisão. Quando Espiridião Amin apareceu mais uma vez na tela, dei-lhe um beijo na boca. Demorei um pouco a dormir, pois estava muito assustado, mas acabei pegando no sono, afinal, já passara a noite anterior em claro. Duas noites assombradas. A viagem estava ficando macabra.

Sonhei que estava em uma praia deserta, procurando ajuda para achar o caminho de volta para a pousada. Ao longe, via amigos meus do Rio passando, gritava, mas minha voz não chegava até eles. Caminhava e depois corria na direção deles, mas a distância mantinha-se sempre a mesma e meus berros continuavam inaudíveis, até que minha voz acabava e eu era condenado a ficar naquela praia deserta até o verão, quando novamente passariam pessoas, que poderiam me ajudar a encontrar o caminho de volta. Enquanto isso, já que não havia tirado a mala do quarto, meus créditos acabariam e em seguida eu passaria a pagar diária até conseguir sair da maldita praia.



por Renato Amado - contato: renatoamado@gmail.com * 5:55 PM

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[Monday, June 01, 2009]

Acidente aéreo chega a ser patético. Uma pane. Um raio. Uma descida mal feita. Um decolagem equivocada. Um defeito na rebimboca da parafuseta. E ponto final. A rebimboca da parafuseta transforma o que era para ser um mero transporte, um detalhe de uma viagem, no fim de centenas de histórias, provoca milhares de lágrimas e coloca nações em catatonia. Pelo absurdo da situação, talvez um bobo da corte fosse uma imagem apropriada a um acidente aéreo, mas o luto se impõe.

(o post viria acompanhado por uma imagem de luto, mas, devo confessar, meu servidor está entregue às traças e fazer upload de imagem tornou-se missão das mais complexas. Não se espantem se, em breve, depararem-se com um post informando novo endereço).

E como o luto costuma vir acompanhado por um minuto de silêncio, guardo para outro dia novos textos e com eles o bom humor.

Por ora, sem mais (ânimo).

por Renato Amado - contato: renatoamado@gmail.com * 6:17 PM

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[Thursday, May 21, 2009]

Sonhos de um mochileiro solitário -15/10, quarta-feira, décimo terceiro dia

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Os textos desta série foram escritos por Reinaldo Amaro, alter ego de Renato Amado. Por coincidência ambos sairam de férias para os mesmos lugares em iguais datas e estiveram em locais em comum. Entretanto, não se viram, embora um tenha sentido a presença do outro.
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Estar numa cidade fantasma tem suas vantagens. Bem, na verdade só me lembro de uma: dormir cedo por absoluta falta de opções, de modo a acordar antes do sol e bem disposto. Era por volta de nove da noite quando Morfeu me abraçou na véspera, portanto, antes das seis da manhã do décimo terceiro dia eu estava de pé e ansioso para inscrever mais uma aventura na minha história.

Vesti-me e saí do albergue. Num distrito próximo havia duas praias. A distância não era grande, segundo me informaram, sendo até possível, com alguma disposição, caminhar. Mas sabe como são as coisas em cidade do interior, as distâncias não são indicadas em quilômetros ou tempo de caminhada, mas em “num é muito longe num sinhô, dá pra ir a pé”. Bem, como passou um ônibus para meu destino logo que abandonei minha hospedagem, em poucos minutos estava onde queria.

Neste dia descobri que em Santa Catarina o horário de funcionamento de tudo é mais restrito. Além dos restaurantes fecharem às quatorze horas, as padarias, ou melhor, panificadoras, como se diz por lá, não são a primeira coisa a abrir, de modo que, incrivelmente, o mercado já estava aberto e a panificadora fechada. Sem problema. Às sete da manhã eu já estava num distrito vizinho ao que me hospedava e comprava três pães franceses e uma pasta de atum com tomate, colocava num saco e me dirigia à praia, onde, além de mim, havia, como não podia deixar de ser, alguns albatrozes e muitos, muitos cachorros. Contudo, quando estendi minha canga (sim, eu tenho uma canga. Acessório inegavelmente prático e que, portanto, não deve ser uma exclusividade feminina), não foram estes que vieram me pedir comida. Descobri neste instante que teria a companhia de muito mais moscas do que de cães. Elas cercaram-me às dezenas. Comecei a ficar preocupado, pois provavelmente elas dariam o bote em breve. Entretanto, elas apenas me circulavam. Caminhavam todas juntas no sentido horário por alguns segundos, depois no anti-horário. Pareciam querer comunicar algo. Desconfiei que estivesse sonhando. Que viagem era aquela!?! Moscas fazendo danças ao meu redor!? Estariam elas bailando para a futura refeição delas, que era meu pão francês com pasta de atum com molho de tomate? Malditas moscas! Uma delas adiantou-se. Veio caminhando pela areia e depois ascendeu verticalmente, parando na altura dos meus olhos. Aproximou-se e eu fui entrando em transe. Meu mundo era aquela mosca. Ela parecia querer dizer algo. Parou, então, a quatro dedos do meu nariz e lá ficou estática. E eu inexplicavelmente paralisado e com toda a minha existência momentaneamente absorvida por ela. De súbito compreendi, acho que deve ter sido uma mensagem mental por ela enviada, que se eu desse um pedaço do pão que para mim era pequeno, mas para elas enorme, elas me deixariam tomar meu café da manhã em paz. Achei que eu estava maluco. Tentei afastá-la com uma das mãos, mas ela retornou e me mergulhou novamente em transe. E agora me sentia ameaçado. De alguma forma sabia que se não a atendesse meu café da manhã estaria condenado. Tirei, então, um pedaço do pão e joguei-o sobre a areia, a um metro de distância. Logo ele estava encoberto por um borrão negro que zumbia. Afastei-me e retomei meu lanche. Foi, então, a vez dos cachorros. Alguns eram grandes e tinham dentes pontiagudos. Afastei-os bradando grosserias e fazendo fortes movimentos com os membros. Foram embora sem problemas. Enfim, acordado com as moscas e tendo espantado os cachorros, pude comer pão francês ainda quentinho em paz enquanto admirava o vôo dos albatrozes cortando o sol nascente.

Devidamente alimentado pus-me a ler um pouco e depois fui conhecer outra praia neste mesmo distrito. Segui reto por uma rua. A praia, me contava o barulho do mar, estava à minha esquerda. Entretanto, havia uma seqüência de propriedades privadas que não me permitia acesso a ela. Prossegui rua acima, mas infelizmente após algumas centenas de metros isso se tornou literal. Só que a praia, me diziam conhecimentos comezinhos de geografia, fica no nível do mar. Retornei, portanto, e fiquei a olhar as propriedades que se enfileiravam à margem da rua. Uma delas me parecia vazia. Chamei, bati palma, nada ouvi. Na rua não passava viv`alma e uma gigantesca nuvem afirmava que em breve o sol iria embora. Evitei pensar duas vezes e pulei o muro do terreno. Qual não foi minha surpresa ao ver um enorme pastor alemão ao meu lado rosnando e mostrando seus assustadores dentes? Como pude ser tão burro? Toda casa naquela região tem cachorro! Mas ele ignorara minha presença quando bati palma e gritei. Ele não queria que eu o descobrisse, tratava-se de um predador nato. Não adiantava correr, ele o faria mais rápido do que eu. Precisava pensar em alguma solução imediata. Havia comido todo o sanduíche com atum, não havia comida a jogar para ele. O único alimento presente era eu. Mas... Assim como um pedaço do pão foi suficiente para as abelhas... Só que eu não tinha faca ou algo do gênero. Em completo desespero, comecei a morder meu braço, tentando tirar-lhe um naco e jogar para a fera. Evidentemente, isso não é algo simples de se fazer e, talvez, sequer possível. Debatia-me e gritava de dor. O cachorro, naturalmente, ficou intrigado com a cena, entortou a cabeça para o lado e ficou a fitar-me, curioso. Isso me deu uma idéia. Continuei a debater-me, como quem quer comer a si próprio, enquanto me afastava, simulando que era um movimento natural em função da auto-guerra, em direção ao muro da casa oposto ao que pulei e que, junto com o demônio de quatro patas que me olhava, me separava da praia. Debati-me, debati-me enquanto caminhava e o cachorro continuava olhando-me intrigado. Ele olhava... Eu me debatia... E caminhava... E ele olhava... E eu me debatia... E caminhava... E o muro se aproxima... Cada vez mais perto... Ele curioso... Eu me debatendo... O muro crescendo em minha vista... Eu andando... O muro ao meu lado... Pulei! Só então o cachorro latiu e avançou ameaçadoramente. Parecia que eu o havia colocado em transe.

Não foram mais do que vinte maravilhosos minutos de sol na praia. Pode-se passar uma vida sem nada ter vivido ou experimentar-se vinte minutos que valem a existência. A praia estava deserta, o sol refletindo no mar lindo e, por mais que a praia em si não fosse das dez mais belas, a aventura que eu passara para chegar até ali me fazia sentir como se tivesse alcançado um oásis no deserto. Meu êxtase era tal que só me perguntei como faria para voltar quando decidi ir embora. Foi uma chuva de água fria. As gotas d `água que caíam do céu e a queda na temperatura me expulsavam com urgência daquele lugar que tornara-se inóspito. Mas não conseguiria hipnotizar o cachorro novamente. Fora do estado de desespero, não me parecia possível ou razoável arrancar um pedaço do meu braço a dentada. Lembrei-me, então, de uma tribo ianomâmi que visitei na Amazônia e de Tom Hanks. Como um náufrago, peguei um pedaço de madeira que vi na areia e fui “lançar” peixes dentro do mar, apesar da baixa visibilidade em função da chuva. Poupo o leitor do resultado óbvio da empreitada rústica deste ser urbano.

Só me restava, então, andar, refazendo pela praia o caminho que havia percorrido por terra. Alguma hora o caminho se abriria para mim. E o fim da chuva quando nisso pensei me pareceu um sinal de que estava certo. Portanto segui, pela areia, secando-me no mormaço. Num certo ponto a praia continuava, mas a rua pela qual eu viera dela se afastava e um terreno baldio se apresentava como rota para devolver este aventureiro-narrador de volta à civilização, me levando a outra rua. Estava explicado, eu tinha pegado a rua errada para chegar à praia. Agora voltaria a Guarda do Embaú a pé, aonde chegaria a tempo de encontrar algum restaurante aberto. No caminho passou uma carroça bem tosca. O cocheiro ofereceu-me carona. “Por que não?”, pensei. Mas as coisas neste dia estavam estranhas entre eu e os animais, portanto, minutos após eu embarcar o cavalo pisou de mau jeito e machucou-se. Voltei ao plano original de seguir a pé e não ousei pedir carona a outro cocheiro que passasse. Também recusava carinho aos cachorros que me pediam, pois estava com medo de amaldiçoá-los. Eles iam embora com alguma reação estranha, fosse rosnando, ou chorando muito, ou ainda corriam de um lado para outro como se tivessem tomado êxtase ou rolavam no chão de uma extremidade a outra da estrada de terra. Realmente estava tudo muito esquisito na minha relação com os bichos desde a inédita crise alérgica em função do gato na véspera. Minha caminhada de volta pareceu, pois, uma arriscada campanha, uma vez que cada cão que passava por mim causava-me calafrios.

Após almoçar no mesmo restaurante da véspera, um dos poucos abertos na cidade, retornei pelo segundo dia seguido à beira do rio que separa a vila da praia principal de Guarda do Embaú, a Praia da Guarda. Mas desta vez sequer aproximei-me do casebre que abrigava o maluco. Ao contrário, fiquei o mais longe possível. Novamente, não havia nenhum barqueiro para levar-me ao outro lado. Sentei, então, e aguardei. Ainda tinha meia tarde pela frente e não me restava nada mais a fazer naquele lugar além de conhecer sua principal praia, mesmo que sob vento e um certo frio. Fiquei, então, sentado, tranqüilo, esperando um alinhamento energético que me permitisse atravessar o rio, o que de fato ocorreu. Vi um casal de turistas com um barqueiro. Eles devem ter vindo de outra dimensão através de um portal. Caminhei até eles e perguntei se poderia ir junto na pequena canoa, ao que a resposta foi positiva. Preferi não perguntar se eles tinham mesmo vindo de outra dimensão, pois esse é o tipo de coisa bem diferente e que, se alguém quiser comentar, o fará sem precisar ser perguntado. Não sei se era verdade, mas diziam ser de São Paulo mesmo. Alguma cidade do interior do Estado, não lembro qual.

De fato, a praia faz jus à fama de bela. É muito bonita, com dunas cujas areias vão mudando de cor, lembrando cortes geológicos. Fomos caminhando, apesar do frio que se acentuava, até nos depararmos com uma ossada de baleia. Não sou religioso, mas fiz o sinal da cruz. A essa altura já estava achando que eu era responsável pela morte do animal. Não, isso era coisa da minha cabeça, estava tudo bem entre mim e os bichos. Enquanto o casal se pegava num canto e curtia a vista sentei-me junto ao mar e observei os albatrozes, aves com as quais eu havia me enturmado muito bem desde minha chegada àquela cidade. Jamais esquecerei nosso momento de integração no dia anterior. E eles evoluíam no ar, contrariando todo o estranhamento que eu havia tido com os bichos desde a manhã. Evoluíam sobre minha cabeça como se a me abençoar e eu, com meu rosto voltado para cima, olhava maravilhado e boquiaberto. Foi quando vi um ponto preto vindo do alto e crescendo em minha direção rapidamente. Não houve tempo para reação. Em um instante eu estava cuspindo titica de albatroz. Após um deles ter-se aliviado sobre eu eles foram embora, enquanto o casal gargalhava alguns metros atrás. Lavei o rosto e a boca no mar e pedi aos meus novos colegas que retornássemos. Queria me trancar no quarto do albergue e não encontrar nenhum animal até o dia seguinte.

Foi o que fiz, mas diversas vezes durante a noite, sempre que começava a pegar no sono, era despertado por uivos macabros bem próximos. Após a sétima vez em que isso ocorreu não consegui pregar os olhos. Não era de todo mal. No dia seguinte eu pegaria dois ônibus e estaria cansado o suficiente pra dormir as viagens inteiras.



por Renato Amado - contato: renatoamado@gmail.com * 5:42 PM

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[Wednesday, May 20, 2009]

Repica, Circulador, Repica!

Não conseguia dormir. O barulho do circulador de ar me irritava. E mesmo quando, apesar da irritação, conseguia perder a consciência por alguns instantes, ficava acordando toda hora e tinha um sono inquieto e desconfortável em função dos enlouquecedores ruídos do aparelho. Tentando calar os insuportáveis sons eu colocava livros em cima e embaixo. Pilhas. Criava verdadeira obra de arte contemporânea no meu quarto. Em certos momentos, entretanto, quando já me dava por vencido, ficava falando em frente ao ventilador e ouvia minha voz sendo picada. Duchamp puro.

Pergunta-se por que eu não desligava o ventilador. Passe um verão no Rio de Janeiro num apartamento sem ar-condicionado e terá a resposta. E eu sou um gordo fétido e, como todo obeso mórbido, extremamente calorento. Explicada a premissa, voltemos ao que interessa: o circulador de ar.

Como dito, quando reconhecia a derrota, ia para a frente do ventilador e ficava a repetir frases aleatórias. Numa certa data varei a noite como um altista repetindo: “caí do cipó”, “mamãe gosta de batom roxo”, “o Salgueiro é vermelho e a Mangueira é verde e rosa”, “namiorrorenguequiô”. Era interessantíssimo ouvir as orações picotadas como cabelo de mulher moderna.

No dia seguinte fui à padaria perto de casa tomar café da manhã. Havia acabado a comida de casa, era fim de semana, resolvi relaxar na panificadora. Aproximei-me do João, o balconista, e como de costume fui dizer-lhe: “me vê um café?”, mas saiu “ v fé?”. Tentei de novo, contudo disse a mesma coisa. Fui ficando nervoso, tentei frases semelhantes para pedir um café, mas todas saíram cortadas. Entrei num táxi, nem tentei falar nada, apenas escrevi num papel: “Copa D`or”. Ao lá chegar redigi “psiquiatra”. Passei a tarde inteira com o doutor, tentando várias frases, até que notei que me faltavam os sons engolidos pelo ventilador. O “é” saía, pois, apesar de na forma escrita ter essa letra em algumas das frases ditas em frente ao ventilador, em todas as hipóteses ela foi pronunciada como “ê” ou como “i”. “I”, falamos “i” quando escrevemos “e” como conjunção aditiva, assim como em muitos outros casos em que se escreve com uma vogal, mas se pronuncia com outra, como em “lôbu”, “iscolha”, etc. Portanto, a letra “e” com o som aberto era a única vogal que me restava. Passei, então, a utilizá-la, mesmo que forçando uma barra, sempre que possível. “Élé é léguél”. Essa frase, por exemplo, é compreensível, mas de fato não dava para ir muito longe, precisava encontrar alguma solução. No desespero tentei uma manobra metafísica, como se o ocorrido fosse uma coisa mística e não fruto de um recente estado de loucura que havia se apoderado de mim. Chamei um técnico e pedi para que mexesse no ventilador e o fizesse girar no sentido oposto, trazendo-me as palavras de volta. Ele não entendeu a razão do contrato e eu não o expliquei, até porque minha limitação fonética não permitiria. Esperei que ele fosse embora, liguei o circulador de ar, fiquei primeiro na frente e depois atrás dele, muito concentrado. Podia sentir as palavras se reintegrando a mim. Até que, quando tinha certeza de que estavam todas de volta abri a boca e gritei: ” !” Tentei gritar “aaaaaaa!”, mas nada saiu. “Félhé dé éé!”, exclamei, então. Se não deu para entender, é “filho da puta” na minha língua.


Maldito ventilador! Não agüentava mais pesadelos por causa do seu barulho desgraçado. Levantei da cama em plena madrugada e fui até o recolhedor de lixo do meu andar. Joguei o circulador lá dentro. Depois de um pesadelo desse minhas banhas teriam que suportar o calor. Mas quando eu voltava para o apartamento a porta bateu, me deixando nu no corredor. Desesperei-me, faltaram-me palavras, mas dessa vez não sonhava.


por Renato Amado - contato: renatoamado@gmail.com * 6:50 PM

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[Thursday, May 14, 2009]

Gêiseres e batatas doces



Provavelmente era a chuva. Não propriamente a chuva, mas o tempo. Ou melhor, não propriamente o tempo, mas a persistência daquele clima já há três dias somada aos grãos de areia que jurava sentir a arranhar-lhe a garganta. Garganta sensível de merda! O trabalho também devia ter a ver. Provavelmente sim. Como não se sentir melancólica tendo que suportar três dias chuvosos e frios, dor de garganta e um trabalho que lhe desagradava? E ainda aquela batata doce a lhe encarar.

As batatas doces são feias. Bem, feias no limite do que se pode chamar de feio algo que vem da natureza. Além de não serem gostosas. E são difíceis de desenhar. Muitas reentrâncias, sombras a serem feitas, relevos a serem captados. Tinha que agendar aqueles prazos. Pedir para pagarem custas. Art. 475-J, do CPC. O prazo estava correndo. A batata doce a encará-la. O gaveteiro estava à sua direita. Era só abrir a última gaveta de cima para baixo. Por que a última de cima para baixo? Sempre pensava nesta seqüência: a afirmativa e depois o questionamento. E depois o pensamento de que sempre pensava assim, seguido pela pergunta: por que não a primeira de baixo para cima? Toda a vida teve uma predileção inconsciente pelo último. Na sua casa, a gaveta que guardava a escova de cabelo era a última debaixo para cima. Afe! Dois pesos e duas medidas. O referencial mudava para indicar o principal como o último. O foco era posto como algo distante. E faltava agendar o último prazo. Malditos prazos. Maldito dia em que não terminou a prova de inglês da UFRJ. Tivera-o feito talvez hoje fosse jornalista. Seria uma solução? Bem, pelo menos advogada tem emprego. Abriu a última gaveta de cima para baixo. Pegou o crayon. Alguém veria? Ela ouviria o chefe saindo da sala. Apenas eles ainda estavam na empresa. Só faltava um prazo para agendar, um mísero prazo. Só agendar e ir para o recesso do seu lar. Não tomaria muito tempo. Pegou um papel na impressora e passou a dar contentamento à batata doce. As batatas doces amam serem desenhadas. Ora, que honra serem objeto de arte, de contemplação. Os seres humanos, os donos do mundo, a curvarem-se a elas, batatas doces. Cheias de reentrâncias e cracas. Parecem pele de baleia corcunda. Curvem-se. Curvem-se à feiúra bela das batatas doces, senhores donos do mundo. Desenhem-nos. Desenhem as rainhas batatas doces. Rainhas! O chefe abriu a porta. Está saindo. O último prazo. Pasta 4752. Processo 2006.008.0666-6. Ai! Mais pó vermelho. Processos e processos do pó vermelho de São João de Meriti. Deve ter sido uma cena interessante. São João de Meriti, de uma ora para outra, repleto de gêiseres. E os caras ainda pedem dano moral. Faça-me o favor. Deve ter sido a coisa mais interessante que ocorreu na vida deles. Imagino um desses caras que entrou com ação contando a história da vida dele: “nasci, fiz colégio até quarta série primária, virei pedreiro e agora estou aqui conversando com a senhora. Ah, e um dia o bueiro perto da minha casa virou um gêiser.” Se bem que o cara certamente nunca ouviu a palavra gêiser. Deve achar que é alemão. Se bobear confunde com Kaiser. Um fodido. Quando está a fim de gastar dinheiro bebe Itaipava. Um bando de fodido querendo ganhar mil reais por causa do pó vermelho e uma mulher com cinco anos de faculdade e doze de escola para dizer que não, que eles não têm direito a mil reais de danos morais por causa do pó vermelho. Ninguém merece fazer cinco anos de faculdade para ficar cuidando de trezentos processos iguais referentes a um pó vermelho que vazou como gêiser do esgoto de São João de Meriti, e ficar desenhando batata doce escondida do chefe. Será que em casa desenharia batata doce? Existem coisas que só dão prazer quando se está no trabalho. É que trabalhar é tão ruim, mas tão ruim, que coisas a princípio chatas e entediantes quando feitas no trabalho ganham contornos - ou talvez máscaras - interessantíssimos. O ser humano é comparativo. É sim. Já viu aquele e-mail da ilusão de ótica por causa do efeito comparativo? Prazo agendado. Chefe foi embora. Sem mais trabalho por hoje. Batata doce, você perdeu a graça. Você não é rainha de porra nenhuma. Volte para o seu buraco e continue empesteando as coisas com esse seu cheiro de natureza morta.

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Conheça Caneta, Lente e Pincel, agora na segunda rodada.

por Renato Amado - contato: renatoamado@gmail.com * 1:45 PM

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[Thursday, May 07, 2009]

Homem de Lata

Baseado, bate-papo e sexo livre. Tudo que um jovem sonha. Era admiradora a vida daquele casal. Amor sem o ditador e autoritário sentimento de posse. Para se amar alguém não é necessário haver exclusividade sobre o seu corpo. Podemos até amar uma pessoa cujas curvas nos são vedadas (amor não correspondido ou fraternal), então por que a busca pela exclusividade? Não faz sentido. O ciúme é um sentimento mantido pela sociedade burguesa para conservar a tradição “família e propriedade”. Para se atender conjuntamente aos mandamentos “crescei-vos e multiplicai-vos” e “não cobiçais a mulher do próximo”, criou-se a mais perniciosa e ignóbil castração à liberdade humana e afronte à sua essência de todos os tempos: a monogamia. Tudo por causa de mandamentos supostamente revelados. Não caiamos na esparrela de que Deus escreveu essas baboseiras numa tábua e a entregou a um sujeito no alto de uma colina. Esses preceitos, como todos os demais de todos os tempos e sociedades, foram moldados pelos que estavam no controle e estes certamente tinham as melhores mulheres e não queriam competi-las. Então, fizeram os mandamentos que, claro, eles não teriam problema em burlar quando quisessem, afinal, através das eras poder significa imunidade.

A burguesia se apropriou dos mandamentos milenares. E todas as classes dominantes farão o mesmo enquanto a história marchar. Cabe às pessoas esclarecidas, portanto, contestá-los, desrespeitá-los, desta forma combatendo-os. Eis a desobediência civil.

Clamo que podemos e devemos praticar a doutrina de Ghandy nas nossas vidas pessoais. Condutas anárquicas na vida privada são grandes atos políticos. Era o que Júnior e Lúcia faziam. Com freqüência um fumava maconha e trepava com amigos num quarto enquanto outro fazia o mesmo em outro. E depois, ao que se comenta, dormiam abraçados, como qualquer apaixonado casal. A admiração pelos dois era grande. Que desapego! Que vanguardistas! Que subversivos! Que evoluídos!

- E aí, deu o cuzinho?
- Por que a pergunta?
- Oi? Ah... Ah, deixa eu dormir.
- Júnior, você tá com ciúme?
- Claro que não Lúcia, você sabe que nunca fui disso.
- Desconfio que dentro de você habita o Bruno, o César, o Paulo, qualquer um menos o Júnior.
- Tá me chamando de hipócrita, Lúcia, que porra é essa?
- Não, não é hipocrisia, mas... Simplesmente eu sinto que você fica incomodado toda vez que deito com outra pessoa. Mas isso é incompatível com os valores que você prega, então você fica se remoendo por dentro pra manter o seu discurso e sua prática alinhados.
- Ah, Lúcia, a essa hora? Me deixa dormir.
Lúcia bufa e pensa.
- Tá bom. Se não quiser conversar agora tudo bem, mas cedo ou tarde esse assunto vai vir à tona. Sua alma tá angustiada. Sua cabeça pensa de uma forma, pensa certo, mas seu coração sente diferente, sente errado, se é que existe sentimento errado, né?
- Sente porra nenhuma, me deixa dormir que eu tô numa lombra sinistra.
- Boa noite.

No final de semana seguinte o ritual se repetiu. Maconha e bacanal. Mas sempre eram dois quartos de orgia: o do Júnior e o da Lúcia, cada cônjuge em um. Alguém, entretanto, no quarto de Júnior, sugeriu que migrassem para o outro aposento e imediatamente partiram todos para lá, com corpos em riste, seguidos pelo anfitrião, que não teve como controlar a monomassa ou negar participação. Assim que chegaram, o primeiro androceu a entrar no quarto deparou-se com o oferecido gineceu de Lúcia e o polinizou. O marido desta, então, que fora o último a entrar no quarto, ao ver tal cena (e sua esposa fazia questão de encará-lo com expressão prazerosa enquanto era penetrada pelo amigo de Júnior) recuou e, discretamente, saiu do recinto. Ficou andando de um lado para o outro, nervoso e perturbado, com a mente anuviada. Foi, então, tomado por um lancinante ciúme. Conscientizou-se dele e tentou controlá-lo, mas uma voz não parava de ressonar em sua mente: “vadia, vagabunda, safada! Dando pro João por puro prazer. Ela nem gosta muito dele. Dando só pra gozar, vadia, vadia, vadia. Cachorra. Vadia. Cachorra. Vadia. Cachorra. Vadia” e assim por diante.

Mas refletiu. Qual era o problema? Se ele não sentia ciúme dela ter prazer com outra pessoa, por exemplo, rindo de piadas, por que esse sentimento o atacava quando o prazer era sexual? Vadia! Não, mas ela apenas fazia o que pessoas libertas das autoritárias tradições burguesas fazem. Aquela cachorra, vadia, piranha, estava certa. A puta estava certíssima. O corno é que estava errado. Claro, ela estava certa. Correta, corretíssima. E enquanto tornava a dizer para si essas palavras, Júnior vestia sua fantasia de Leatherface. Já fantasiado, continuava repetindo que ela estava correta no tempo em que pegava a serra elétrica no depósito próximo à casa do caseiro. E estava praticamente convencido da exatidão da atitude de sua mulher quando chegou à porta do quarto e ligou o equipamento de corte. Maquinalmente avançou brandindo a serra, enquanto continuava repetindo mentalmente que Lúcia estava certíssima. Todos gritavam para que ele parasse, mas ele prosseguia, como um robô que executa um programa. Ficaram todos acuados no canto do quarto, enquanto um dos convidados tentava abrir a janela, mas o nervosismo e a pressa traziam lentidão. E seguia Júnior, com sua ensurdecedora motosserra. Antes que se conseguisse abrir a janela ele acuou todos num canto e disse com voz retilínea: “ela está certa. Minha cabeça pensa certo. Meu coração sente errado.” Esticou, então, os braços à frente do seu corpo, virou a serra elétrica para si e pôs-se a serrar seu próprio tórax. Diante de olhares incrédulos e enojados arrancou seu coração, caminhou com ele nas mãos até o banheiro, jogo-o na lata de lixo, voltou para o quarto, observou os corpos nus e quando se despiu já estava em impressionante ereção. Tomou, então, a iniciativa e reiniciou a suruba com espetacular disposição. Sem o coração a bombear o sangue, foi necessária a utilização de toda a sua energia vital para manter o magnífico enrijecimento de seu órgão. Contudo, junto com seu sêmen foi-se embora o resto de vida que havia naquele corpo cujos sentimentos haviam sido descartados numa lixeira.


por Renato Amado - contato: renatoamado@gmail.com * 2:16 PM

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[Monday, May 04, 2009]

Fugindo ao tema - não resisti

Sala de aula. O aluno indagou o significado da palavra hegemonia. Eis a resposta do professor:



Hegemonia=Clube de Regatas Flamengo.

Pausa na literatura para justas saudações rubro-negras.



por Renato Amado - contato: renatoamado@gmail.com * 10:20 AM

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[Wednesday, April 22, 2009]

Análise

O primeiro movimento para a libertação é a mudança de ângulo. Ver sempre sob a mesma perspectiva é a garantia do bitolamento. O ideal é colocar-se na posição de um observador. Creio que só escreve uma boa autobiografia aquele que o faz na terceira pessoa. Contudo, caso não se tenha o grau de desapego necessário para tal, que continue em primeira pessoa, mas que enxergue sob outro prisma. Break on through to the other side e veja e sinta o que tem lá. Certezas se fragmentam. Dificilmente surgirão substitutas, além da convicção aristotélica sobre o nada saber. Mas a desconstrução de adágios pessoais é fundamental para a libertação. Nossas verdades são os tijolos da cela que construímos para nós mesmos.

Quando mudei de perspectiva e estiquei meu pescoço para o outro lado, subitamente vomitei minha infância. Não sei por que isso ocorreu. Ela simplesmente escapou pela minha boca tão logo minha cabeça rompeu a barreira do quadrado que me cerca. Mas ainda estou nele. Apenas esgueirei meu rosto para fora por um breve instante que me causou uma enriquecedora náusea. Vi um mundo novo, estranho. Mas estranho nada mais é do que o diferente daquilo a que se está acostumado. E por lá deixei minha infância. Não cheguei a nenhuma resposta precisa, mas sei que preciso me livrar de muitas coisas dos meus primeiros anos de vida. Sem dúvida naquela época adquiri muitos complexos que me atormentam até hoje. Mas isso já é uma ineficaz tentativa de auto-análise e não quero me aventurar nisso. Apenas desejo narrar-lhe minha experiência, afinal a análise fica por sua conta. Só lhe peço um favor antes de começá-la: deixe eu me mudar do divã para a poltrona, pois por alguma razão incerta não estou me sentindo bem nesse esquisito sofá.
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Texto inspirado em imagem de Fabiano Gummo.

por Renato Amado - contato: renatoamado@gmail.com * 9:55 AM

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[Wednesday, April 15, 2009]

Sonhos de um Mochileiro Solitário, por Reinaldo Amaro - 14/10, 12º dia, terça-feira

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Os textos desta série foram escritos por Reinaldo Amaro, alter ego de Renato Amado. Por coincidência ambos sairam de férias para os mesmos lugares em iguais datas e estiveram em locais em comum. Entretanto, não se viram, embora um tenha sentido a presença do outro.
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Após uma semana na companhia de Mineiro, além do grande grupo que esteve comigo em Blumenau, neste dia voltaria a estar sozinho. Dei um abraço no amigo de Belo Horizonte e entrei no ônibus para Guarda do Embaú, sob um céu coberto de nuvens. Estava tomado por uma certa emoção. Uma etapa da viagem mais especial da minha vida tinha acabado. Agora provavelmente não haveria mais festanças, loucuras e possivelmente não construiria mais amizades tão rápidas e fortes como houve com Mineiro e os israelenses. Além disso, eu estava indo para um lugar de praia, em dia de semana, na baixa temporada e com ao firmamento branco. Pela primeira vez questionei-me o que eu estava fazendo, se não era um programa de índio, onde eu havia metido a cabeça ao decidir sair viajando sozinho pelo Sul, sobretudo fora do verão. Esse sentimento ampliou-se quando cheguei ao meu destino.

Guarda do Embaú parecia um vilarejo fantasma. A maioria das lojas estava fechada, poucos restaurantes e bares abertos. As ruas só não estavam desertas graças aos cachorros. Tinha a impressão de que havia mais cachorro do que gente na cidade. Quase todos lá têm mais de um cachorro. Foi um pouco deprimente ver uma cidade turística na baixa temporada. Pensei como é difícil viver do turismo. Normalmente vemos as cidades para as quais viajamos fervendo, mas a realidade na maior parte do ano é oposta, sobretudo fora dos trópicos, onde o calor só existe no verão.

Aplaquei minha fome num dos poucos restaurantes abertos, onde comi uma comida à quilo meia boca. Depois caminhei até o rio que separa a vila da praia, onde é necessário buscar-se um barqueiro para se conhecer o que há do outro lado. O problema era: não havia barqueiro. São os pescadores que prestam este tipo de serviço. Por quatro reais eles te levam para a praia e te trazem de volta. Sim, é possível nadar, mas o que fazer com minha camisa, bermuda, carteira, celular? Não estava a fim de deixar tudo no albergue e ir só de sunga, até porque fazia um pouco de frio. Ventava o suficiente para atrapalhar o vôo dos muitos albatrozes que havia na região. E foi admirando-os que aguardei solitário, por vinte minutos, que surgisse um pescador que me levasse à praia. Espera vã. Eu estava mesmo em uma cidade fantasma. Vi, então, uma cabana feita de bambu e palha, próxima ao rio. De dentro dela vinha uma voz. Animei-me com o sinal de vida e com as placas com inscrições como: “temos casquinha de siri”. Ótimo, se havia uma venda aberta é porque ao menos de vez em quando uma alma viva devia passar por ali. Fui até a porta do casebre e vi um homem de tez parda, com alguns dentes tortos e outros faltando, um chapéu de palha, enrolando um carretel e falando sozinho, com um jeito de muito, muito maluco mesmo. Mas não me restava outra opção:

- Oi, boa tarde, você sabe onde consigo um pescador pra atravessar o rio?
- Você quer um pescador, é?
- Isso.
- Pra atravessar o rio, é?
- Isso.
- E pra que você quer atravessar o rio?
- Pra conhecer a praia do outro lado.
- Hm. E você quer conhecer a praia? Pra quê, pra que você quer conhecer a praia?
- Ué, só pra ver como é que é, curiosidade.
- Hm. Tem alguma coisa aí. Tem alguma coisa de estranha, o que você tá me escondendo?
- Não tô escondendo nada não, só quero conhecer a praia mesmo.
- Hm. Conhecer a praia. Mas deve ter algum motivo. Tem alguma coisa aí. E você é formado, é?
- Sou sim.
- Em quê?
- Em que eu sou formado? Hm, senhor, será que não dá pra você me indicar um barqueiro pra me levar pra praia?
- Te indicar um barqueiro? Mas eu nem sei quem você é? Você sabe quem eu sou?
- Sei não.
- Eu sou o Zé. – estende a mão para me cumprimentar. Olho desconfiado e hesito. – Aperta minha mão! – aperto a mão dele.
- Qual o seu nome?
- Reinaldo.
- Reinaldo de quê?
- Amaro.
- E você é formado, é?
- Sou.
- Sabe que eu... – emociona-se – eu não sei ler.
- É mesmo...?
- É, mas tá vendo aquela grafia ali? – aponta para dísticos com inscrições sobre os produtos à venda – fui eu quem fiz. Ah, você é um filho da puta! – subitamente agitado, corre em direção ao refrigerador, abre-o e me joga uma lata de cerveja, que me ponho a beber. Ele se aproxima de mim com o olhar mais louco do que nunca.
- E o que você quer, hein?
- Quero um barqueiro pra chegar à praia.
- Um barqueiro? Mas eu não sei quem você é.
- Ué, sou o Reinaldo Amaro, não te falei?
- E de onde você é?
- Do Rio.
- Eu tenho uma filha que mora lá. Em Petrópolis.
Ele olha-me torto e desconfiado. De repetente arregala os olhos e fala:
- Seu filho da puta, eu te dou um machadada! – olho para a machadinha que há no balcão, próximo a ele.
- Tá, acho melhor eu ir indo embora.
- E você não quer um pescador? – novamente calmo.
- Deixa pra lá.
- Sabe o que você é pra mim? Merda nenhuma. Você é merda. – tornando a ficar um pouco agitado e agressivo.
- Tá, vou indo. Toma o dinheiro da cerveja. Até mais.

Afastei-me em passo relativamente acelerado enquanto ele gritava: “Ô carioca, ô carioca, não quer um pescador? Hahaha. Um barco pro carioca ir pra praia, hahahaha.”

Avistei a poucos metros dali um local mais arrumadinho, típico lugar para turista. Não sei por que estava aberto, já que turista não havia. Dei boa tarde à moça que trabalhava atrás do balcão e pedi para entrar. Não sabia exatamente o que eu fazia ali. Era uma espécie de lanchonete arrumadinha, quase um café. Eu buscava, na verdade, um refúgio. Não tinha qualquer fome, mas necessidade de me comunicar com uma pessoa normal. Sentei no balcão e comecei a puxar assunto com a mulher que descobri ser a dona. Narrei-lhe o diálogo com o maluco que ela definiu como uma pessoa com uma compreensão fora do comum sobre a natureza e pouco compreendido. Preferi não polemizar e segui o assunto adiante, até que ela me informou acerca de uma trilha sem bifurcações que levava à praia. Comprei uma água quase que por etiqueta em agradecimento à informação prestada e segui pelo caminho, que ia pela encosta de um pequeno morro, junto ao rio que impedia a chegada à praia, avançando em direção ao mar. A cada instante aumentava minha convicção de que aquela trilha não me levaria à praia, uma vez que seguia pela margem oposta do rio, em direção ao seu estuário, até que ele terminava e a trilha passava a beirar o mar em sentido inverso ao da praia. Nesse momento, chegava-se a um trecho de pedras que levava a uma mini-praia. Não devia ter mais de dez metros de extensão. Sentei-me numa pedra e fiquei observando os albatrozes, que evoluíam num show particular para mim. Passou, então, a melancolia que me tomara desde quando me despedi de Mineiro, bem como o ensaio de solidão que tive ao ver a cidade deserta. Ao contrário, senti-me integrado à natureza, reencontrei meu lado bicho-homem. Não precisamos de outros seres humanos, sobretudo no mesmo contexto que nós, no caso, turistando, para não estarmos sozinhos. Somos parte da natureza e sempre estamos em sua companhia, portanto, jamais solitários. Fiquei de sunga e nadei sob os albatrozes. Quando me dei conta havia uma sintonia entre nós. Meus movimentos na água e seus movimentos no céu pareciam dialogar, seguir uma espécie de sincronia. Isto rendeu um tempo que ainda não terminou.

Seguindo pela trilha cheguei ao alto de um pequeno morro. De um lado o local de onde eu viera, do outro o futuro destino e, no cume, próximo a mim, dois casais jovens, quase adolescentes, que estavam agitados, falando besteiras, reclamando do vento frio, e que não pareciam sintonizados com a vibração da natureza. Busquei ignorá-los, sentei numa pedra e pus-me a meditar. Fui nitidamente olhado como um ser estranho. Essa foi apenas a primeira vez em que isso aconteceu durante a viagem (e também na minha vida pós-viagem, embora com menos freqüência). Não fazia a barba desde antes de viajar e estava só, no alto de um morro, com os cabelos esvoaçantes, sentado sobre uma pedra, meditando. Parecia um ermitão. Mas eu não buscava encarnar qualquer personagem. Apenas curtia o alinhamento vibratório com Gaia, semelhante ao experimentado quando estive na Garganta Del Diablo. Aos olhos sociais talvez isso parecesse estranho, curioso, particular, mas era apenas natural.

Após alguns minutos de meditação e de um nada fazer que era um tudo ou o todo, segui caminhada por uma área em que a encosta do pequeno morro era verde, salpicada por algumas pedras. Era extremamente bonito, principalmente quando visto de longe, o que me gerava um mal estar, pois a bateria de minha máquina fotográfica acabara quando ainda estava em companhia dos albatrozes. Caminhei por dez minutos e cheguei a outra praia, consideravelmente maior. Atrás dela havia uma pequena encosta verde com um casebre e alguns bois pastando. Junto ao mar um homem pescava, enquanto dois cachorros pareciam fazer sua segurança e me encaravam com expressão nada amigável. Molhei-me no oceano a uma distância segura. Enquanto isso o homem foi embora. Esperei um pouco e segui de volta para a vila antes que faltasse claridade.

Fui direto para o quase café de antes. Nenhum interesse especial além de uma vaga esperança de pegar a dona que não era lá essas coisas, mas como eu estava numa cidade fantasma e em terra de cego quem tem olho é rei... Sentei-me, abri um livro, pedi uma cerveja e assim fiquei por uns quinze minutos, até que surgiu um gato que me fez achar a moça que me despertara um mínimo interesse um nada. Só voltei a dirigir-me a ela para perguntar o nome do animal: Panzé. Coloquei-o no meu colo e por lá ele ficou por um bom tempo, ronronando. Quando ele decidiu descer não vi mais qualquer graça na lanchonete. Não pretendia comer por lá, pois podia fazer Miojo antes de dormir. Ah, esqueci de dizer que eu era o único hóspede do albergue e que tinha um quarto só para mim. Dentro do cômodo tinha fogão, panela, pratos e talher. Recolhi-me, portanto, para fazer Miojo. No caminho, contudo, meus olhos começaram a coçar de uma maneira inacreditável. Às vezes tenho crises alérgicas que fazem ao menos um dos meus olhos coçar, mas jamais na intensidade em que ocorreu naquele dia, muito menos em função de contato com um gato, pois eu nunca tivera alergia a qualquer animal. Entretanto, meu olho direito estava insuportável. Era olhado pelas poucas pessoas que passavam por mim com ar de estranheza (segunda vez). Não bastasse ser um turista naquela época de Macondo, um dos meus olhos parecia estar mais irritado do que mulher de TPM.

Ao olhar-me no espelho do quarto do albergue fiquei tão impressionado que bati quatro fotos do meu olho. A máquina fotográfica não deve registrar uma viagem irreal, apenas com maravilhas.

Depois do macarrão, digo, do Miojo, já que este alimento não alcança a estatura daquele, fui dormir com os olhos ainda vermelhos. No silêncio entre o dia e os sonhos lembrei-me de meu snorkel e da máscara de mergulho que, antes que eu tivesse oportunidade de usá-los, haviam ficado na mochila de Gigio, pessoa que eu nunca mais veria, já que a blitz impossibilitou que eu pegasse seu telefone antes de nos separarmos pela eternidade. Quando os sonhos interromperam o silêncio senti-me com bronquite, mas um peixe espada a curou abrindo meu tórax e meus brônquios com seu bico.

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por Renato Amado - contato: renatoamado@gmail.com * 6:49 PM

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[Thursday, April 09, 2009]

Diário de um Mochileiro Solitário, por Reinaldo Amaro – 13/10 – 11º dia

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Os textos desta série foram escritos por Reinaldo Amaro, alter ego de Renato Amado. Por coincidência ambos sairam de férias para os mesmos lugares em iguais datas e estiveram em locais em comum. Entretanto, não se viram, embora um tenha sentido a presença do outro.
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Prezados leitores, cometerei um ato vil. Utilizá-los-ei como cobaias de um novo projeto pessoal. Explico.
Estou estudando roteiro. Sei que é muito difícil ganhar a vida com romances, então me curvo àquela faceta mais comercial da literatura. Por isso troquei clarices lispectors e jorges amados por syd fields. Se nunca ouviu este nome é porque você é um leigo no tema roteiro. Sem problema, direito seu.

Bem, para aprender sobre o assunto nada melhor do que praticar. Eis, portanto, que farei algo surreal. Escreverei este capítulo em forma de roteiro. Sim, um capítulo em forma de roteiro em meio a um romance, caros leitores. Se você nunca se deparou com um script na sua frente lamento que o primeiro seja a obra de um iniciante. Se já leu algum me desculpo desde já pelas prováveis diversas imperfeições técnicas. Aceito que sejam mandadas dicas, críticas e sugestões para o e-mail amaroreinaldo@yahoo.com.br.

Pelo dito, fica por aqui a costumeira narração em primeira pessoa, para voltar no capítulo que vem. Devo esclarecer que roteiros são descrições de cenas em terceira pessoa, redigidos para um espectador, ou seja, não são expostos os acontecimentos internos dos personagens, mas somente aquilo que pode ser visto ou ouvido. Entretanto, começo só na próxima página. Aproveite o espaço em branco para pensar se quer mesmo se aventurar nesta leitura...













CENA 01. INT. SUITE DE HOTEL. DIA

REINALDO acorda em suíte de hotel. É uma suíte mediana, com uma cama de casal e uma televisão presa num suporte na parede. Há também um criado mudo e um frigobar. A porta do banheiro está aberta.
REINALDO olha em volta tentando reconhecer onde está, até que consegue lembrar-se. Procura seu celular no chão, ao lado da cama, onde se vê seu mochilão de viagem com alguns bolsos abertos e peças de roupa jogadas no seu entorno. Ele avista o celular ao lado do mochilão, pega-o, olha a hora nele e telefona.

REINALDO
Mineiro? Tava dormindo ainda, cara?

Breve silêncio.

REINALDO
E você ainda tá na casa das coroas?

Breve Silêncio.

REINALDO
Cara, vai embora da casa dessas criminosas. Eu tô num hotel. Vamos nos encontrar e procurar um lugar pra dormir.

Breve silêncio.

REINALDO (assustado e irritado)
O quê? Você vai ficar por aí!?! Ah, mas não vai mesmo, amigo. Nem que a vaca tussa, cumpadi!

Breve silêncio.

REINALDO
Cara, fala sério. Essas mulheres são criminosas, é até arriscado você ficar aí. Cara, eu vou botar polícia atrás delas se você ficar aí. Vambora procurar um albergue, qualquer coisa, cacete! Deixa de viajar! Vai desperdiçar sua viagem em Floripa numa casa de coroa?! Vamos nos encontrar, anda, me pega aqui no hotel.

Breve silêncio.

REINALDO
Anota então o endereço. Rua...

FADE OUT.

CENA 02. INT. CARRO (em movimento). DIA.

MINEIRO e REINALDO dentro do carro. Aquele com cara de sono e satisfeito. Este exalando certo mau humor e irritação.

REINALDO
Cara, vamos na delegacia.
MINEIRO (lânguido)
Vou não, carioca...
REINALDO
Elas nos estupraram. Atentado violento ao pudor. A gente não pode deixar isso passar.
MINEIRO
Ah, vai dizer q`ocê não gostou... Ô, sô, se não tivesse gostado não tinha gozado, uai.
REINALDO
Não é muito bem por aí.
MINEIRO
Uai, e não é não? Já viu uma gozada ser ruim? Como é que o camarada vai gozar se tiver achando o trem ruim? Às vezes, quando bebe, mesmo achando bom, é difícil do leite sair, quanto mais se não tiver gostando. Véi, tá na cara q`ocê gostou demais da conta, sô...

REINALDO
Brother, é claro que teve um momento que só me restou relaxar. Já tava na merda mesmo, totalmente dominado, só me restava relaxar e aproveitar. Mas isso não significa que se eu tivesse opção não teria preferido ir embora sem que nada tivesse acontecido. Se elas fizeram isso com a gente essas mulé podem ser capazes de qualquer coisa.
MINEIRO (tom jocoso)
Se alguma vez alguém não tivesse gostado elas já tavam atrás das grades. Ô, véi, só ocê mesmo pra não gostar de ser atacado por um monte de muié de uma vez... tô até te estranhando...
REINALDO
Se eu tivesse escolhido as mulheres teria gostado.
MINEIRO
Olha só, vamos pra esse albergue que a gente descobriu. Depois eu vou pra praia. Ô, véi, se ocê preferir trocar a praia pela delegacia vai lá sozinho.

REINALDO, com a mão direita segurando a parte de cima da janela e o cotovelo apoiado na parte debaixo olha para fora do carro. Enche a boca de ar, estufando as bochechas e libera o ar aos poucos, aparentando simultaneamente insatisfação e resignação.

CORTA PARA.

CENA 03. EXT. DUNAS DA PRAIA DE JOAQUINA. DIA.

Sol de meio dia. REINALDO descendo uma duna em pé numa prancha de sandboard. Demonstra pouca habilidade e faz um grande esforço para manter-se de pé.
MINEIRO, no alto da duna, com uma prancha de sandboard ao lado, masca um capim.
DOIS HOMENS aparentando vinte anos, com pranchas de sandboard nas mãos, ambos com pequenas ou médias tatuagens e um deles com piercing no nariz, se aproximam de MINEIRO. O HOMEM DE PIERCING cumprimenta MINEIRO com um leve aceno de cabeça e um murmúrio, fica em pé sobre a prancha, concentra-se, puxa ar e DESLIZA duna abaixo. O HOMEM SEM PIERCING puxa assunto com MINEIRO.

HOMEM SEM PIERCING
Dá preguiça só de pensar em subir essa duna depois.
MINEIRO
Cansa demais, véi.
HOMEM SEM PIERCING
Você é de onde?
MINEIRO
Belo Horizonte. E ocê?
HOMEM SEM PIERCING
Balneário Camboriú.

Enquanto o diálogo se desenrola vemos ao fundo REINALDO, que já terminou de descer, observar o HOMEM DE PIERCING DESLIZANDO duna abaixo. Ele o faz bem melhor do que REINALDO, demonstrando uma relativa intimidade com o esporte. Quando termina de descer PLANO FECHADO nele e em REINALDO, que a ele se dirige, enquanto ambos caminham duna acima.

REINALDO
Quanto tempo de prática pra descer assim?
HOMEM DE PIERCING
Não é difícil não. Eu só brinco um pouquinho.
REINALDO
Pra mim isso é praticamente nível profissional.
HOMEM DE PIERCING (solta uma risada)
Acho que eu teria alguma chance concorrendo com o pessoal do Campeonato de Dente de Leite. Você é de onde?
REINALDO (ofegante)
Rio. Porra, é foda subir essa porra de volta. Um suplício por três segundos de alegria. Mas tá valendo.
HOMEM DE PIERCING (ofegante)
Depois dessa eu parei. Dá pra subir mais não. Ser fumante é uma merda. Você fuma?
REINALDO
Não, mas meu preparo físico equivale ao de um fumante.

Sobem em silêncio por um período. Quando estão chegando, o HOMEM DE PIERCING pergunta:
HOMEM DE PIERCING
Qual o seu nome?
REINALDO
Reinaldo.
HOMEM DE PIERCING
Gigio.

Apertam as mãos. Encontram MINEIRO e o HOMEM SEM PIERCING que, sentados, interrompem a conversa para cumprimentá-los. Os quatro olham-se. REINALDO e o HOMEM SEM PIERCING apertam as mãos.

REINALDO
Prazer, Reinaldo.
HOMEM SEM PIERCING
Cadu.
MINEIRO (para CADU)
Ô, véi, a gente ficou aqui de prosa e acabou não se apresentando, né?
CADU (apertando a mão de mineiro)
Cadu.
MINEIRO (apertando a mão de CADU)
Prazer...
REINALDO (cortando MINEIRO)
O nome desse daí é MINEIRO. O de sotaque mais carregado do mundo.
MINEIRO (para GIGIO)
E ocê?
GIGIO
Gigio.
MINEIRO
Prazer.
GIGIO
Daqui vocês vão pra onde?
REINALDO
Pô... brother, tô pensando em ir pra Guarda do Embaú hoje à tarde. O Mineiro fica em Floripa mais uns dias.
GIGIO
É que a gente tá indo agora pra uma praia deserta, que tem que pegar uma trilha de uma hora pra chegar. Tem uma lagoa perto da praia. É massa.
REINALDO
Por mim, pode ser. Posso ir pra Guarda amanhã. O que você acha, Mineiro?
MINEIRO
Uai, vambora, sô. Tô à toa mesmo.
REINALDO
Então partiu. Vambora.

CORTA PARA.

CENA 04. INT. CARRO. DIA

Vemos MINEIRO dirigindo e REINALDO no banco do carona. Na frente do carro uma moto com GIGIO conduzindo e CADU atrás. A moto encosta e pára.

MINEIRO
Véi, os cara tão perdidinhos.
REINALDO
Será? Puta que pariu. Deixar de viajar hoje pra ficar rodando que nem barata tonta por Floripa é foda.

Vemos GIGIO descendo da moto e mexendo no olho. Ele e o carona usam capacete que só cobre cocuruto e nuca.

MINEIRO
Ih, véi, acho que entrou um cisco no olho do cara.

Enquanto mexe nos olhos, GIGIO chama um senhor de pele parda e embrutecida que passava numa bicicleta. Fala alguma coisa com ele, entrega-lhe cinco reais e o SENHOR lhe dá algo em troca. Continua mexendo nos olhos por mais uns instantes e sobe de volta à moto, partindo.

MINEIRO
Véi, acho que ele comprou um negocinho, viu?
REINALDO
Será?

O carro volta a andar, seguindo a moto.

CORTA PARA.

CENA 05. INT. MERCEARIA. DIA.

REINALDO, GIGIO e MINEIRO circulam por um corredor de uma mercearia. GIGIO pega uma lata de pasta de atum da prateleira. Surge CADU com um pacote de pães.

REINALDO
Partiu, partiu?
GIGIO
Bora, bora.

Todos se dirigem ao caixa, onde pagam enquanto conversam.

REINALDO
Porra, esqueci uma parada no carro.
GIGIO
O quê?
REINALDO
Trouxe um snorkel e uma máscara. É bom levar, de repente tem uns peixes lá pra ver. Comprei antes de viajar e tô querendo estrear.
GIGIO
Pega lá, então, que eu levo na minha mochila.
REINALDO
Já é. Beleza.

CORTA PARA

CENA 06. EXT. TRILHA. DIA

CADU, MINEIRO, REINALDO e GIGIO numa clareira na trilha. Os dois primeiros encostados numa pedra. CADU com um cigarro de maconha no fim passa-o a MINEIRO enquanto tosse. Todos nitidamente sob efeito da droga.

GIGIO
Você vai se amarrar na praia. Maior visu. E tem a lagoa atrás desertona. Bonito pra caralho.
REINALDO (lânguido e com os olhos semi-serrados)
É...?
GIGIO
Do caralho...
REINALDO
Podes crer... vai ser IRADO ver os peixes pelo meu snorkel.
GIGIO
Podes crer...
REINALDO
É...

MINEIRO mostra o cigarro de maconha aos presentes, oferecendo. Todos recusam. Ele apaga na pedra.

GIGIO
Me dá aqui.

MINEIRO entrega-lhe o que sobrou do fumo e GIGIO o coloca dentro de um maço de cigarro, junto com alguns cigarros comuns.

GIGIO
Partiu.

CENA 07. EXT. TRILHA. DIA

Flashes de GIGIO, REINALDO, MINEIRO e CADU caminhando pela trilha. Alguns trechos de mata mais fechada, outros com mata mais aberta e altos, podendo-se ver a praia ao final e, na direção oposta, algumas casas que denunciam a presença da cidade, de onde vieram.

CENA 08. EXT. PRAIA. DIA

REINALDO, GIGIO, CADU e MINEIRO chegam à praia. Vemos eles saindo da trilha em fila indiana. Ao lado da saída da trilha, uma barraca de camping. Já passa do meio da tarde. REINALDO sai correndo na frente aparentando muita felicidade e vai em direção ao oceano, largando a roupa pelo caminho, inclusive a sunga. Parece não ter reparado na barraca de camping. Mergulha no mar e põe-se a nadar.

GIGIO (lânguido)
Espero que nenhum tubarão pegue ele.
MINEIRO
Aqui tem tubarão?
GIGIO
Dizem que uma menina foi atacada aqui ano passado.
MINEIRO
Tem certeza?
GIGIO
É o que dizem...
MINEIRO
Ô, véi, tem não, aqui não é Recife.
GIGIO
Podes crer.
MINEIRO
Sô, será que a gente fala com ele?
GIGIO
Aqui não é Recife.
MINEIRO
É, mas agora ocê me deixou encasquetado.
GIGIO.
A gente acende de novo que você relaxa.
MINEIRO
Ô, véi, cadê o cara?
GIGIO
Sei não...
MINEIRO
Será que ele se afogou? Ele tava muito doido.
GIGIO
Será? Ele deve tá lá nadando, a gente que não tá vendo.

Sai uma mulher da barraca e caminha em direção a GIGIO, MINEIRO e CADU.

MULHER
E aí, galera, olhando o mar?
MINEIRO
Tamo procurando um amigo nosso que mergulhou e sumiu.
MULHER (desesperando-se)
Porra, cara, aqui tem tubarão pra caralho!
MINEIRO
Tanto assim, é?
MULHER
Porra, pra caralho!
GIGIO
Qual é, Cadu? Tá mudo?
CADU
Não, tô só viajando no maluco nadando.
GIGIO
E você tá vendo ele?
CADU
O tempo todo. Tá ali brincando com um golfinho. Mais ali pro fundo e pra direita. Olha lá.

Todos olham e quase simultaneamente falam:

GIGIO
Fodeu!
MULHER
Caralho.
MINEIRO
Ih... danou-se.

A MULHER corre de volta para a barraca. Sai em seguida na companhia de uma SEGUNDA MULHER, levemente atraente. Esta leva uma pequena faca e aquela um abridor de garrafa. GIGIO procura uma pedra, acha e a carrega com ele. CADU olha em volta sem parecer entender o que está ocorrendo e MINEIRO coça a cabeça olhando a movimentação dos demais enquanto pensa o que fazer.

Em PLANO ABERTO vemos as DUAS MULHERES e GIGIO correrem em direção ao mar. MINEIRO vai atrás lentamente após comentar alguma coisa com CADU que, ao ouvi-lo, sai correndo desesperado em direção ao mar. Mergulham as DUAS MULHERES, GIGIO e CADU e nadam em direção a REINALDO. MINEIRO observa da beira da água. Quando chegam perto, o animal já se foi e REINALDO está com um grande sorriso no rosto.

GIGIO
Cadê? Cadê o filho da puta? Você tá bem?
REINALDO
Hã? Tô ótimo! Irado.
GIGIO
Ele não te deu nenhuma dentada não?
REINALDO
Não, por quê?
GIGIO
Porra, tubarão, né.
REINALDO
Haha. Não, golfinho.
GIGIO
Caralho! Puta que pariu!
CADU
A gente pensou que fosse tubarão...
REINALDO
Nada... E vocês duas... prazer. Devo avisá-las que apenas o mar esconde minhas vergonhas.
SEGUNDA MULHER
Bem que eu tinha achado estranha aquela sunga que vi largada no caminho.
REINALDO
Estranha? Por quê?
SEGUNDA MULHER
Não, não, ai, desculpa. A sunga não é estranha. Estranho foi ter visto ela largada lá.
REINALDO
Ah... tá. Eu mergulhar no mar pelado é normalzão.
MULHER
Ah, cara, nadar pelado é muito bom.
REINALDO
Então tira a roupa.
MULHER
Pô, cara, aqui tem tubarão.
REINALDO
É... e tubarão gosta de mulher sem roupa.

Gargalhadas.

SEGUNDA MULHER
E por acaso seu nome é tubarão?
REINALDO
Se você quiser que assim seja... mas Reinaldo também gosta.
SEGUNDA MULHER
Hmm. Silvia.
REINALDO
Bem-vinda ao mar, Senhorita Silvia.
SILVIA
É, mas aqui é perigoso, tem tubarão.
REINALDO
Garanto que o que tá mais próximo de você não vai te fazer nenhum mal.
GIGIO
Galera, acho melhor a gente ir indo embora... oh, tamos nos secando ali fora.
REINALDO
Beleza.
MULHER
Tô lá.
SILVIA
Beleza. Leva pra mim, por favor.

Entrega-lhe a faca.
SILVIA e REINALDO esperam alguns segundos enquanto os demais se afastam.

SILVIA
Essas ondas tão batendo...
REINALDO
Eu te seguro no colo.
SILVIA
Oba!

SILVIA aproxima-se de REINALDO e o abraça, passando as mãos em volta do seu pescoço. As pernas entrelaçam seu tronco na altura da cintura, mas estão encobertas pela água. Ele passa seus braços em volta do seu corpo.

REINALDO
Não era exatamente assim o colo que eu estava pensando, mas melhor ainda...

Beijam-se na boca.

REINALDO
Desistiu de nadar pelada?

SILVIA olha REINALDO com um sorriso cúmplice e sacana. Em seguida, tira a parte debaixo do biquíni e volta a abraça-lo, com o biquíni na mão. Beijam-se e em seguida SILVIA começa a subir e descer, deixando claro que fazem amor.

PONTO DE VISTA DOS DEMAIS, que conversam em roda à beira-mar: SILVIA quicando dentro da água, abraçada a Reinaldo.

MINEIRO
E a gente achando que o cara tava SENDO atacado por tubarão...

CORTA PARA

CENA 09. EXT. TRILHA. DIA.

GIGIO, CADU, MINEIRO, MULHER, SILVIA e REINALDO caminham por uma trilha bem aberta. Todos vestidos. Há meramente um mato alto. As árvores são raras e o solo arenoso. É uma pequena trilha que liga a praia à lagoa que há atrás.

No caminho, avistam uma casa feita de galões de vinho com cimento.

MINEIRO
Ô, que massa, véi!

MINEIRO e REINALDO tiram fotos. Sai um homem de meia idade, mas aparentando mais. Mal encarado, cabelo rastafári e com dentes faltando. Traz uma peixeira na mão e tem um olhar ameaçador.

HOMEM
Tão tirando foto do quê? Sai daqui, sai daqui!

Saem todos correndo de volta para a trilha em direção à lagoa, a cerca de vinte metros dali. O homem só observa o grupo se afastar.

CENA 10. EXT. BEIRA DA LAGOA. DIA

O grupo CHEGA CORRENDO à beira da lagoa e pára a corrida. O sol de fim de tarde reflete na água, ofuscando e maravilhando os presentes. Há um pequeno desnível junta à Lagoa que cobre a visão da casa.

MINEIRO
Véi, será que não é melhor a gente continuar correndo não? Vai que o doido veio atrás.
GIGIO
Relaxa. Esse cara é um misto de bandido com rasta que fica naquela casa que ele mesmo fez. De vez em quando ele assalta quem passa por lá, se vem um grupo pequeno, mas ele não vai vir correndo atrás da gente.
REINALDO
Brother, que viagem... que bad isso.
SILVIA
Ficou com medinho, é gatinho? Pode deixar que eu te protejo.

SILVIA dá um beijo em REINALDO.

Todos se sentam à beira da água. GIGIO tira a comida da mochila e todos se servem de pão com pasta de atum.

Antes de morder um pão generosamente recheado pela pasta:

GIGIO
Adeus Lara.

CORTA PARA

CENA 11. INT. CARRO. INÍCIO DA NOITE

MINEIRO dirigindo seu carro. MULHER no banco do carona. SILVIA e REINALDO no banco de trás.

MINEIRO
Programinha bom...

REINALDO (enfático tom de confirmação)
Porra!

Sorrisos maliciosos nos lábios de REINALDO e nos de SILVIA.

Vemos a moto de GIGIO e CADU ser parada numa blitz à frente. O policial faz sinal para que o carro siga, mas REINALDO acena para o policial, que pára o carro.

SILVIA (irritada, e contendo-se para não gritar)
Porra, por que você fez isso, cara?
REINALDO
Quero relatar pra eles o assédio de que fui vítima ontem.
SILVIA
Assédio?
MINEIRO
Ô véi, ocê esqueceu que os caras tão com baseado? Se eles disserem que tamos com eles sujou pra nós.
REINALDO
Caralho, que seqüela, tinha esquecido!

O carro pára. Tem apenas duas portas. MULHER se inclina no banco da frente para REINALDO sair. Os demais se mantém dentro do carro.

CENA 12. EXT. BLITZ. INÍCIO DA NOITE.

REINALDO sai do carro e BATE A PORTA. Ao fundo vemos GIGIO e CADU sendo revistados.

POLICIAL
Pois não.
REINALDO
É que eu fui vítima de um crime ontem e queria relatar.
POLICIAL
Olha, não sendo flagrante, você tem que ir na delegacia.
REINALDO
Mas eu não posso aproveitar a oportunidade? Relato a situação a você e depois você a registra na delegacia. Você tem fé publica.
POLICIAL
Não dá não senhor.
REINALDO
Olha só, pode-se instalar um inquérito até de ofício, então eu posso te relatar, que você...

Ao fundo vê-se policial encontrado cigarro de maconha no maço de cigarro de GIGIO

REINALDO
Tá, onde é a delegacia mais próxima?
POLICIAL
Vira na terceira esquerda e pede informação por lá.
REINALDO
Tá bom. Brigado.
POLICIAL (secamente)
Disponha.

O policial, com pressa em livrar-se de REINALDO, faz sinal para um carro encostar. REINALDO entra no carro de MINEIRO.

CENA 13. INT. CARRO. INÍCIO DA NOITE

REINALDO fala enquanto se dirige para o banco de trás e MULHER BATE A PORTA.

REINALDO
Partiu que os caras rodaram.

Mineiro acelera o carro o mais rápido que a situação permite.

CORTA PARA

CENA 14.INT. QUARTO DE ALBERGUE. NOITE

Quarto de albergue. Dois beliches. Na cama debaixo de um deles REINALDO e SILVIA dormem apertados. REINALDO se move bastante e murmura, demonstrando ter sonhos agitados. Em seguida vemos a cama inferior do beliche ao lado vazia. Do PONTO DE VISTA DE QUEM ESTARIA NELA DEITADO vemos movimentos no colchão de cima, sugerindo que um casal ali faz amor. Preso no estrado há um capim semelhante ao que MINEIRO mascava nas dunas de Joaquina. Após alguns movimentos do colchão acima dele o capim cai sobre o leito debaixo.

FIM.



por Renato Amado - contato: renatoamado@gmail.com * 4:31 PM

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